
O Supremo Tribunal Federal vive uma nova rodada de tensões internas em meio aos desdobramentos do julgamento da chamada “trama golpista”, que envolve o ex-presidente Jair Bolsonaro e diversos aliados. Nesta terça-feira (21), o ministro Luiz Fux protagonizou um dos momentos mais marcantes da semana jurídica ao divergir da maioria da Primeira Turma e votar pela absolvição dos sete réus do chamado “Núcleo 4” — grupo acusado de atuar na disseminação de desinformação e ataques virtuais contra o sistema eleitoral e as instituições democráticas.
Apesar da divergência, o placar final ficou em 4 votos a 1 pela condenação dos acusados. A posição isolada de Fux se destacou pelo tom e pelas justificativas apresentadas. Em seu voto, o ministro argumentou que não ficou comprovado o “potencial real de tomada de poder ou substituição de governo”, requisito que, segundo ele, seria essencial para caracterizar o crime de golpe de Estado. Sua manifestação reforçou uma linha interpretativa mais restritiva, questionando o alcance jurídico atribuído às ações digitais do grupo.
A decisão ocorre enquanto o próprio Fux revisa seu voto no julgamento do “Núcleo 1” — processo que resultou na condenação de Bolsonaro a mais de 27 anos de prisão por participação direta na articulação golpista. Essa revisão, ainda sem prazo definido, adia a publicação do acórdão oficial e, consequentemente, o início do prazo para apresentação de recursos. A medida é vista por analistas e bastidores jurídicos como um alívio momentâneo para a defesa do ex-presidente, que ganha tempo para formular estratégias e recorrer.
Nos bastidores do Supremo, o gesto de Fux foi interpretado como um sinal de desconforto com o rumo dos julgamentos e com o tom político que o processo vem assumindo. O ministro também criticou declarações públicas de colegas fora dos autos, em especial as manifestações do ministro Gilmar Mendes, afirmando que esse tipo de postura “fere a integridade do processo e a credibilidade da Corte”. Em outra frente, Fux levantou a tese de que o Núcleo 4 deveria ter sido julgado pelo Plenário, e não pela Primeira Turma, alegando vícios processuais.
A divergência de Fux ganhou novos contornos quando o relator Alexandre de Moraes citou, durante a sessão, mensagens interceptadas que mencionavam o próprio Fux e supostas conexões com o sistema financeiro, o que acentuou o clima de desconforto interno. Embora a maioria dos ministros tenha mantido a linha de condenação, as falas expuseram as fissuras entre diferentes alas do Supremo.
Com o avanço das condenações e a indefinição sobre a publicação dos votos revisados, cresce a expectativa sobre os próximos passos do tribunal. Caso o pedido de Fux para deixar a Primeira Turma seja aceito, ele ficaria de fora dos julgamentos dos núcleos 2 e 3 da trama golpista, o que pode alterar o equilíbrio interno da Corte.
Enquanto isso, no campo político, aliados de Bolsonaro interpretam as movimentações de Fux como um gesto de independência e um sinal de que ainda há espaço para questionar os rumos do processo. Já críticos veem na estratégia uma tentativa de adiar o desfecho inevitável e de politizar um julgamento que, segundo o relator, tem base sólida em provas documentais e digitais.
O Supremo, mais uma vez, se vê dividido entre diferentes visões sobre o papel do Judiciário diante de crises políticas. O voto de Fux — técnico e controverso — reacende o debate sobre os limites da Justiça, a pressão institucional e o impacto das decisões do STF na disputa política que segue polarizando o país.